Artigo: Dicas aos Pais e Educadores Para Criar Crianças Gentis

(Extraído da obra “How to raise kind kids”, “Como criar crianças gentis”, de Thomas Lickona)

 

Gentileza e Cultura adequada

A Gentileza tem 3 componentes:
– Sentimento pelas outras pessoas;
– Um desejo de promover a felicidade;
– Uma bondade interior como fonte.

Gentileza não se trata de simples ações externas, mas de ações motivadas por uma atitude interior, uma verdadeira preocupação pela felicidade dos outros.
Como pais e educadores podemos utilizar isso gerando oportunidades conscientes para que as crianças exerçam isso e reflitam a respeito. Dar a chance de que possam agir assim.
As crianças precisam ter a oportunidade de fazer coisas, deveres, e ajudar na família e na escola.
Não ter tudo sempre pronto e resolvido para elas. Elas devem poder servir mais do que serem servidas.
Quanto mais desenvolvemos a gentileza desde cedo nas crianças, mais responsáveis elas serão, mais elas aceitarão as diferenças e mais elas cuidarão dos outros, não somente delas mesmas.

Como criar uma cultura familiar adequada? 6 Princípios Chave
1. Faça com que o Caráter seja a maior prioridade em sua família;
2. Ame seus filhos (mas demonstre na prática; e com tempo);
3. Exercite a autoridade de forma sábia (obediência cega é ruim);
4. Dê Voz e Responsabilidade na família aos seus filhos;
5. Estenda a compaixão para além da família;
6. Promova uma visão nobre sobre a vida (e com justiça).

Disciplina

Crianças e jovens precisam e querem uma estrutura justa, firme e razoável que permite que eles se sintam seguros.

Uma boa disciplina desenvolve características e habilidades de um bom caráter, tais como: bom julgamento, empatia, bondade e autocontrole  que geram um bom comportamento respeitoso e responsável.

O 1º desafio para obter uma boa disciplina é fazer com que as crianças e jovens se sintam responsáveis pelos padrões de comportamento que nós estabelecemos.
Mas não adianta mera conformidade com as regras por autoridade. É fundamental que a disciplina impacte a atitude deles, que venha de dentro – de uma motivação intrínseca. Eles devem querer se comportar bem e melhor, e acreditar que eles podem.

Não é fácil, mas nós, treinadores do caráter, devemos sempre manter a ação disciplinadora pelo bem deles. Vale a pena!

Estratégias para obter/desenvolver uma boa disciplina:
1. Mantenha a construção intencional de uma cultura familiar – bons “rituais” familiares;

2. Deixe claras as suas expectativas, e a um nível alto – se esperamos mais, teremos mais. Primeiro precisamos ser específicos sobre regras e bons comportamentos;

3. Faça uma pergunta e peça que algo errado seja refeito – perguntam que façam a criança pensar/lembrar; o que foi errado deve ser refeito;

4. Seja atento e flexível – ser sensível a situações pontuais e tratar de colocar-se no lugar de seu filho, do que ele pode estar passando no momento (cansado? com fome? doente? magoado com alguém? etc);

5. Seja proativo, tenha um plano – planeje (antes);

6. Evite lutas de poder dando escolha às crianças – antecipe um conflito oferecendo uma escolha dentro dos limites;

7. Envolva o cérebro superior de seus filhos, e não subestime o poder do cérebro deles – deixe o cérebro superior (córtex cerebral: racionalidade, considerar alternativas e possíveis consequências, pensamento crítico e criativo) no comando e não o cérebro inferior (desejos, instintos, fortes emoções e reações);

8. Proteja um tempo de conversa para vocês como pais – não esqueça o casamento, o tempo íntimo para tratar de seus assuntos e dos valores e caráter da família, ações etc;

9. Trabalhe COM os seus filhos para resolver um problema;

10. Faça concessões pelo temperamento de seus filhos – a disciplina deve respeitar seu filhos como um indivíduo, levando em conta o seu temperamento particular. De acordo com um estudo com 133 crianças, realizado pelos doutores Alexander Thomas, Stella Chess, e Hebert Birch, da New York University, o temperamento pode ser evidente em um bebê de 18 meses, ou antes.
Cerca de 15% das crianças têm temperamento difícil. Identificaram 10 traços de temperamento.
Sugerem conscientizar a criança a respeito, de forma específica, solidária e não-emocional;

11. Não tenha receio de fazer uma correção severa quando necessário – amor incondicional não é aprovação incondicional a situações absurdas:
– deixe claro o que houve e quem foi o responsável – expresse desapontamento com a
criança;
– deixe claro o que isso causou – demonstre indignação e esclareça a injustiça;
– deixe claro qual deve ser o comportamento moral correto – apele para o senso de responsabilidade e sobre o que é certo e errado;
– exija desculpas e reparação;

12. Envolva as crianças definindo consequências justas – cuidado para não impor consequências exageradas (e frequentemente ter que diminuí-las, o que mina a autoridade). É melhor gerar reflexão com perguntas “o que você acha que seria uma consequência justa para o que você fez?;

13. Sempre exija reparação – se alguém provoca algo ruim, tem a obrigação de tratar de corrigir isso por algo bom. Ex: família que instituiu a jarra de trabalhos de restituição;

14. Afirme o comportamento positivo – “todo mundo me diz o que não fazer, mas ninguém me diz O QUE fazer” (depoimento de uma criança). Cuidado: não utilize recompensas (motivação extrínseca) para premiar o que é dever e o certo a fazer;

15. Guie o desenvolvimento do raciocínio moral – a meta maior e final da disciplina é o desenvolvimento do caráter. Ajude os seus filhos a raciocinar moralmente, para que vejam o correto curso das ações mesmo quando circunstâncias poderiam afetar o julgamento inicial deles.
Pergunte; não entregue tudo pronto; seja intencional em guiar o caminho para que eles cheguem às conclusões adequadas;

 

Tecnologias/ Uso das telas eletrônicas

A onipresença das telas em nossas vidas é o desafio cultural mais perverso que enfrentamos para cultivar a bondade em nossas famílias.
Celulares, tablets, computadores, tvs, vídeo games etc, têm alterado profundamente nossa forma de viver e de nos relacionarmos uns com os outros.
A tecnologia trouxe benefícios, mas também um custo…
Uso desenfreado das telas – uma doença…:

– Em 1970 crianças começavam a ver TV regularmente aos 4 anos de idade; atualmente começam a utilizar dispositivos digitais aos 4 meses;

– Em 2011 uma em cada 10 crianças menores do que 2 anos usava algum dispositivo digital apenas 2 anos depois, em 2013, já eram 4 em cada 10; em 2015 a maioria delas já utilizava;

– 4 em cada 5 famílias tem vídeo games em casa e as crianças começam a usá-lo com menos de 4 anos  dependência/vício;

– Garotos de 8 a 12 anos gastam mais de 6h/semana em algum dispositivo digital, sendo mais de 4h30 em telas;

– Adolescentes de 13 a 18 anos passam mais de 8h/semana em algum dispositivo digital, sendo mais de 6h45 em telas  isso significa mais de 47h/semana em telas (mais do que um emprego integral);

– Esses adolescentes enviam, em média, 100 mensagens de texto por dia;

– A metade dos adolescentes descreve a si mesmo como dependente do celular.

Como os pais influenciam o uso de telas por crianças e jovens
(Estudo do American College of Peditritians – Faculdade Americana de Pediatria – Nov/16)

– A maioria das crianças e adolescentes vivem em lares onde não há regras sobre o uso de telas;

– A quantidade de horas que os pais veem TV ou utilizam dispositivos digitais é o maior preditivo sobre quanto os filhos verão, maior do que o impacto de regras;

– Um estudo com mais de 6000 crianças resultou em 54% delas dizendo que seus pais olhavam demais o celular. Mais de 50% dos pais reconheceram isso;

– Um estudo do Boston Medical Center em restaurantes fast-food revelou que mais da metade dos adultos com crianças usava o celular durante a refeição, e que cerca de 2/3 usava durante toda a refeição;

– A maioria das crianças e adolescentes vivem em lares onde não há regras sobre o uso de telas;

– A quantidade de horas que os pais veem TV ou utilizam dispositivos digitais é o maior preditivo sobre quanto os filhos farão o mesmo, maior do que o impacto de regras;

– Um estudo com mais de 6000 crianças resultou em 54% delas dizendo que seus pais olhavam demais o celular. Mais de 50% dos pais reconheceram isso;

– Um estudo do Boston Medical Center em restaurantes do tipo fast-food revelou que mais da metade dos adultos com crianças usava o celular durante a refeição, e que cerca de 2/3 usava durante toda a refeição.

Conclusões das pesquisas e estudos:
1. Nós não regramos o uso das telas; as telas nos regram. Elas dominam a vida da família.
Nossos filhos passam mais tempo nas telas do que interagindo com a família. A maioria dos pais não controla o conteúdo que os filhos consomem. Quem está realmente criando nossas crianças?;

2. Na era digital, muitos pais reclamam de que eles frequentemente têm que concorrer com as telas pela atenção dos filhos. Mas as pesquisas revelam que o problema ocorre nos dois lados. Os garotos dizem que eles têm que concorrer pela nossa atenção também…;

3. Alto nível de uso e o uso noturno são associados à diminuição do tempo e qualidade do sono – o que pode gerar obesidade, diabetes, dificuldade de aprendizagem e hiperatividade;

4. Quanto mais horas crianças de 1 a 3 anos assistem telas, maior é a chance de que elas apresentem problemas de atenção aos 7 anos. Quanto maior o tempo que alunos do FII e EM passam em vídeo games, maior é a dificuldade de atenção deles;

5. Mais de 2000 estudos indicam que exposição de crianças a violência nas telas provoca comportamentos agressivos nelas e as dessensibiliza sobre isso;

6. 9 em 10 vídeo games apresenta algum tipo de violência e os mais vendidos são os mais violentos. 90% dos jovens dizem que os seus pais nunca verificam a idade mínima recomendada de cada jogo e que não limitam por quanto tempo podem jogar;

7. Crianças e adolescentes que jogam jogos violentos demonstram níveis mais baixos de empatia e comportamento pro-social, interpretam os comportamentos dos outros mais negativamente e são mais agressivos;

8. Quanto mais veem conteúdo sexual, mais prematura será a atividade sexual.

Em 2012 a Dra Victoria Dunckley, psicoterapeuta especializada em crianças e consultora da rede NBC de televisão, criou o termo ESS (Electronic Screen Syndrome – Síndrome das Telas Eletrônicas)
e relatou que as telas:

– Estimulam demais o cérebro das crianças;

– Estressam os seus sistemas nervosos ainda não maduros;

– Geram impacto negativos no humor, cognição e comportamento.

A Dra Vistoria criou o curso online “Salve o cérebro de seu filho” para pais.
Em 2013, a 5ª edição do Manual psiquiátrico diagnóstico e estatístico de desordens mentais lançou uma nova disfunção mental: desordem de desregulação disruptiva do humor – devido ao crescente e alarmante número de crianças que apresentavam os seguintes comportamentos (mas eram mal diagnosticadas como TDAH ou bipolares):
– irritabilidade crônica
– dificuldade em ter foco
– descontroles
– comportamento disruptivo de desafio e de oposição

Telas e adolescentes: A epidemia de ansiedade e depressão
Diversos estudos em vários países relatam uma relação entre o tempo de tela e a depressão em adolescentes e na vida futura deles, gerando até suicídios.
Causas:

– pressão sobre o que aparece ou não aparece nas mídias;
– bullying eletrônico;
– dependência da constante estimulação que vem pelo celular;
– ilusão de viver uma vida virtual x mundo real;
– falta de bons e verdadeiros amigos, solidão;
– ausência amorosa e disciplinadora dos pais e família.

Estabeleça regras familiares para o uso das telas
Assuma o controle e não deixe de lado o papel de principal educador de seus filhos. O uso de telas
deve ser um privilégio, não um direito.

1.Não permita TV ou qualquer tela para crianças menores que 2 anos;

2. Desencoraje o uso de brinquedos eletrônicos por crianças e encoraje jogos que incentivam o pensamento e criatividade, assim como blocos, quebra-cabeças, Legos e materiais de desenho ou pintura;

3. Com crianças menores de 10 anos limite qualquer exposição de qualquer mídia de entretenimento para até 1h por dia ou menos:

– desligue a TV e outras telas nas refeições;
– não permita que crianças tenham TV, computador, celular, jogos eletrônicos ou acesso à
internet no quarto delas;

4.Encoraje formas alternativas de entretenimento, especialmente aquelas que envolvem atividades físicas, se possível com a participação de toda a família;

5. Monitore o que as crianças e adolescentes veem nas mídias:
– Qualquer programa ensinará algo aos seus filhos. Assista com eles de vez em quando;
– Pergunte sobre o que estão vendo, o que eles entendem que acontece, se acham que é
real;
– Explique os comerciais aos seus filhos. Comerciais quase sempre querem vender coisas.
As crianças devem entender que não precisamos disso para sermos felizes;

6. Saiba e siga as recomendações de faixa etária de cada produto ou serviço consumido. Vídeo games geralmente se tornam mais violentos e mais sexuais à medida que se avança nos níveis – cuidado:
– Não permita jogos pela internet com outras pessoas desconhecidas;

7. Sejam pais que dão um bom exemplo:
– Limite o seu próprio uso de mídias e telas – desligue tudo nas refeições;
– Não utilize celulares enquanto dirige;
– Pense em outras formas de entreter os seus filhos quando viaja, assim como livros histórias, jogos educativos etc.

No início pode ser difícil implantar regras restritivas. Espere resistência. Eles vão reclamar, achar tudo chato, até chorar. Mas, com o passar do tempo e persistência, as crianças acharão outras formas de se divertir e os benefícios vão aparecer: crianças e jovens mais tranquilos, atenciosos, gentis, saudáveis e felizes – é o que todos queremos!

Basta amor com disciplina, e um bom exemplo dos pais e educadores.

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